III
Ao cruzar a esquina e sentir os pés
chapinharem no chão lamacento do beco, Jean Le Balladier se deu conta de que
dos quatro rapazes recostados nos degraus da entrada da casa mais próxima, dois
deles tinham soerguido o corpo, como se fossem recrutas numa guarita, ou sentinelas
numa fronteira; enfim, como um grupo a quem fora designada a missão de ficar de
olho em quem entrasse. “Cães treinados”, pensou o poeta. “Cães
entediados”. E foi reto na direção deles,
Pigarreou e entoou uma nota musical grave, audível apenas em seu tronco e
garganta, procurando uma nota básica, a nota de onde começar.
Ele parou diante dos quatro, que a esta
altura já estavam alerta, embora não
fosse possível ver se estavam armados.
De sua garganta emergiu um gemido profundo, musical, que foi se soltando
num canto da grito controlado e melodioso fazendo variações, enfeites, e depois
descendo a um tom mais coloquial, onde ele cantou os primeiros versos.
-
Dei um soco na cara de um cavalo que o focinho entortou, virou
pra trás.
Os quatro abriram mais os olhos, e não se
mexeram.
- Amarrei os artelhos de um rapaz, foi
assim que cheguei a pendurá-lo.
Testas franzidas. Um deles, que fazia menção de se levantar, relaxou as pernas.
Testas franzidas. Um deles, que fazia menção de se levantar, relaxou as pernas.
- Quando eu vejo a montanha dando abalo,
sinto cheiro de enxofre de vulcão.
Um deles se empertigou, reconhecendo
alguma palavra. Um passou a mão no queixo.
- Rodopia no vento o furacão, na comprida
espiral da vida e morte.
Pelo menos duas caras refratárias, de
recuo, de bater com a cabeça na parede. Os outros ainda expectantes.
- Todo homem que faz um verso forte
incrementa o bornal da Criação.
Houve um silêncio longo como se eles estivessem esperando mais, embora a voluta melódica realizada pelo cantor tivesse encerrado aquele trecho de forma definitiva e incontestável. Balladier tirou o chapéu, fazendo uma saudação exagerada mas sem uma gota de subserviência.
- Um poeta ao seu serviço, meus jovens.
Pronto para revelar seu passado e seu futuro, sob a forma de versos cantados,
com bela melodia e sentido profundo. Sem
cobrança e sem dispêndio, um presente meu para ajudar amigos que sem dúvida
querem saber o que os aguarda hoje à noite.
Eram quatro, e um deles acabou falando:
- Você sabe o que vai acontecer hoje à
noite?
- Não sei, mas talvez eu possa ajudá-lo a
ficar sabendo, meu jovem. Pergunte o que quer saber.
O rapaz passou a mão pelo cabelo, riu e
decidiu-se.
- Quero saber se hoje à noite receberei as
moedas que Hassan me deve.
Balladier aproximou-se, fez uma pose de
rosto voltado para o céu e disse, de pouco em pouco:
- Existe só um mistério numa moeda devida.
– Fez a pausa, deixou aquilo assentar. E logo: - Ela tem zero valor, porque não
foi recebida. – Nova pausa. E então: - Melhor que seja buscada. Pra que não
seja perdida. – Virou-se devagar. – Entendeu?
- Sim – disse o rapaz, e era visível que
entendera mesmo.
Esta cena foi testemunhada por El Padre e
por Yajung, parados à entrada do beco. Viram, depois disto, Balladier enfiar a
mão no bolso, tirar alguma moedas de pequeno valor e mostrá-las aos jovens,
dizendo que se estavam dispostos a ganhar algum dinheiro bastava segui-lo. Três deles se ergueram para acompanhá-lo,
enquanto o último fez cara de desinteresse e entrou na casa. Balladier partiu na frente, acompanhado pelos
rapazes, com a segurança de quem sabe exatamente para onde está indo, e logo
sumiu nos ziguezagues e esquinas do beco.
* *
*
Estes são os fatos concretos, os fatos
confiáveis (porque perguntados e reperguntados várias vezes a todos os que
foram acima citados, com exceção dos mortos), os fatos testemunhados pelos dois
grupos que o marinheiro Talek formara de
um modo aparentemente tão espontâneo, tão não-pensado, em torno daquela aposta. Enquanto via os preparativos e a entrada de
Le Balladier no Beco, El Padre (conforme depôs, muitas vezes, em variadas
ocasiões) limitou-se a observar que ele de fato entrara naquele ponto e sumira
de vista, cantarolando algum refrão em tom estentórico e sendo respondido em
coro pelos jovens.
Seguiram-se então algumas horas de
expectativa, depois de expectativa e tédio, depois de tédio e cansaço, por fim
só de cansaço, e como um prêmio por este último surgiram de repente na esquina
da rua (não no beco), de braços erguidos e gritos roucos de euforia, Jean Le
Balladier, sobraçando a bolsa de couro com seu prêmio, o marinheiro Talek, o
Jogador, com os olhos brilhantes sabe-se lá por qual triunfo autobiográfico; as
demais testemunhas, entre elas o fiel Gonzal, que abraçou-se com El Padre, gritando:
“Um corte fundo no braço, mas nada que preocupe, e já está em torniquete;
saiu dali cantando e dançando, cercado de mulheres... Nem mesmo eu acreditei...”
As únicas testemunhas do fato de Jean Le
Balladier ter percorrido de ponta a ponta o Beco da Punhalada, portanto, são:
1) seus amigos Gonzal e El Padre: segundo quaisquer testemunhos, pessoas
capazes de jurar sobre a Bíblia que Le Balladier, seu ídolo, tinha caminhado
por cima da água; 2) os marinheiro Talek, cognominado O Jogador, ao qual adveio
grande notoriedade após este episódio; 3) seus três companheiros nessa ocasião,
homens destinados a proporcionar segurança para Talek e o manuscrito, que era
considerado valiooso.
As histórias, desde então (nem parece que
mais de trinta anos se passaram), propõem, versões delirantes e fantasiosas
dessa travessia, cuja importância,
curiosamente, Talek fazia questão de ressaltar e Le Balladier de diminuir. Depois que os sete homens envolvidos no
episódio confraternizaram e comemoraram naquela noite o feito do poeta, foi
como se de um lado houvesse um ataque de falta de memória e do outro o anúncio
de um mundo novo.
Jean Le Balladier (há testemunhos
registrados) referiu-se em público a esse fato cerca três anos depois, quando
ao cantar numa noite chuvosa para um público de conhecedores radicais,
comentou; “Agora vou cantar-lhes algumas estrofes da minha travessia do Beco da
Punhalada, porque há muitas versões distorcidas circulando, então façam-me um
favor, só acreditem que um verso é meu se o virem cantado por mim mesmo”.
E após essas palavras firmes, ele cantou
os versos, merecidamente famosos:
Quem vive de empunhadura,
esquiva, e golpe mortal
quem confia a existência
à firmeza do punhal,
sabe que viver matando
é a escolha fatal
de quem pode dar um corte:
isto o Bem, aquilo o Mal.
Sempre é preciso escolher
matar ou deixar viver
- um instante pra fazer
escolha certa ou errada;
muitas vezes escolhi
e nunca me arrependi
das lições que aprendi
no Beco da Punhalada.
Isso, no entanto, eram versos do próprio Balladier comemorando
de forma abstrata uma história que deveria incluir uma parte narrativa. Que, da parte dele, era sempre escassa.
Um outro conjunto de versos sobreviveu graças a uma das três
testemunhas de Talek o Jogador. Era um dos homens que ele levara consigo à
outra extremidade do Beco da Punhalada, onde receberam, quase duas horas
depois, a chegada arfante, ensanguentada, mas triunfal de Jean Le Balladier,
surgindo na saída do Beco quando os raios do por-do-sol já se afastavam por
cima das casas em volta, e o Bardo apareceu com o braço esquerdo empapado em
sangue, o direito sobraçando um botijão de vinho, e em volta de sua cintura
umas meninotas deslumbradas e ruidosas.
O companheiro de Talek, um homem chamado Yarracome, declarou que dois
homens vinham correndo como que a persegui-lo, mas ao verem o grupo que o
esperava desistiram e perderam-se novamente nas sombras dos carasarões semi-arruinados.
Yarracome foi um dos que trouxeram aos cronistas, anos depois,
versos cantados por Le Balladier (com quem manteve relações de amizade distante
desde aquele dia) numa cantoria contra Simon Petit, em Alhandra. De acordo com
essa versão, Simon provocou o Bardo dizendo:
Se defenda, meu amigo,
que a luta vai ser pesada,
verso rijo, braço forte,
cada estrofe uma pancada;
não é aquela moleza
do Beco da Punhalada.
Le Balladier retrucou:
Simon, esta minha espada
pendurada ali atrás
ainda lembra os combates
que eu travei quando rapaz;
com ela eu cruzei o Beco
sem achar nada demais.
O próprio Le Balladier entra aqui em contradição com o relato
oficial da façanha, segundo o qual ele teria deixado a espada com um amigo, e
se defendido no trajeto apenas com o punhal; mas talvez ele estivesse apenas
criando uma imagem poética, deixando a informação correta em segundo plano.
Os dois prosseguiram:
SP:
Se já fez, hoje não faz
pois quem é velho não luta;
perdeu o calor do sangue
já não tem a força bruta
nessa idade todos viram
velhos de boa conduta.
JLB:
O povo ainda me escuta
conhece minhas façanhas
lutando de arma em punho
em muitas terras estranhas,
tomando à mão os castelos
subindo a pé as montanhas.
SP:
Dizem que você tem manhas
de ladrão, não de poeta;
que nada na sua vida
seguiu pela estrada reta,
e você tem uma história
mal contada e incompleta.
Neste ponto da transcrição percebe-esse uma possível alusão de
Simon Petit às poucas informações do poeta sobre o episódio do Beco da
Punhalada. Provavelmente foi assim que Le Balladier entendeu o verso, a julgar
pela sua resposta:
JLB:
Você não sentiu a seta
que se cravou no meu braço
nem viu o sangue vermelho
gotejando a cada passo
quando eu lutei pela vida
com o punho, o olho, o aço.
SP:
Você não caiu no laço
que aquela aposta lhe armou;
sei que atravessou o Beco,
saiu vivo e escapou
mas o que ocorreu ali
nenhuma história contou.
JLB:
Mais de um bandido tombou
e antes ele do que eu;
negociei, combati,
defendi o que era meu
e aquele fim de tarde
o Beco nunca esqueceu.
SP:
Então desculpe se eu
lhe perguntei pelos fatos,
porque até hoje o mundo
já escutou mil relatos;
todos são, pelo que sei,
mentirosos e inexatos.
São estes, pelo que se pôde avaliar, os únicos versos (e na
verdade os únicos depoimentos documentados) em que Jean Le Balladier se refere
a um dos episódios mais conhecidos e mais obscuros de sua vida de poeta e
aventureiro. Esse laconismo é ainda mais admirável quando olhamos para o outro
prato da balança e vemos as dezenas (talvez mais de uma centena) de poemas,
canções e relatos, todos fantasiosos, sobre aquela tarde em Porto Antióquia.
Entre os mais importantes relatos estão:
1) Um dos rapazes que o acompanharam no início da travessia
garante que ele e Balladier enfrentaram mais de dez grupos de rufiões,
sucessivamente, matando alguns e afugentando os demais. A história foi muito repetida nos bares da
cidade até que os próprios amigos de Orhan Maklund (era o seu nome) perceberam
que a história nunca era a mesma, e tendia a aumentar de tamanho e tornar-se
mais extraordinária cada vez que era contada.
2) Uma das prostitutas residentes no Beco afirma que foi comida
por Le Balladier durante a aventura. Dado
o pouco tempo disponível, é improvável que seja verdade, embora fontes mais
confiáveis tenham relatado episódios sexuais de extrema rapidez envolvendo o
poeta e alguma dama, às vezes atrás da porta de um quarto, durante uma festa,
às vezes no vestíbulo de uma mansão ou por trás da coluna de uma igreja.
3) O poema “A Hecatombe do Beco”, de Grant McMurdo, descreve
uma carnificina igualmente improvável, mas sua verve imaginativa acabou
transformando-o numa das principais fontes de referência sobre o episódio, por
mais fantasiosa que seja.
4) Não devemos esquecer que Colmen Chesbron, conhecido cronista
de Porto Antióquia, deu sua versão da aventura de Le Balladier no beco,
afirmando que ele se valeu mais dos versos do que das armas, e que sua bela voz
e os versos surpreendentes (La Balladier sempre demonstrou talento para dizer o
que os seus ouvintes tinham interesse em ouvir) garantiram que fizesse incólume
a travessia. Em grande parte os fatos
confirmam essa crônica, cuja credibilidade no entanto fica prejudicada quando o
autor afirma que Balladier não matou ninguém e não sofreu ferimento algum – e pelo
menos no primeiro caso há várias testemunhas que afirmam o contrário.
5) Outro registro em verso (grande parte das crônicas orais das
populações miseráveis de Porto Antióquia são em verso, pela facilidade de
memorização que possibilitam) descreve o ponto de vista de alguém situado nos
telhados do Beco e que acompanhou o avanço de Le Balladier. O poema é anônimo e tem vários indícios de
autenticidade, mas em nenhum momento cita o nome do poeta ou descreve sua
aparência, o que fez alguns historiadores questionarem sua relevância.
6) No códice “Porto Antióquia: Heróis, Ladrões e Guerreiros”,
Vic Montolian faz um relato sintético, em duas páginas, da travessia do Beco
por Le Balladier, como sendo um dos feitos heróicos mais comentados daquela
época. O tom é documental e sóbrio, e transmite a idéia de que o poeta de fato
manteve meio hipnotizada aquela turba de rufiões à medida que avançava, falando
sem parar. Montolian cita (e nomeia) testemunhas, e dá detalhes importantes
como a roupa usada pelo poeta durante o episódio. Seu testemunho é colocado em
dúvida apenas pelo fato de que outros episódios que narra em seu códice são
eivados de omissões e invencionices, de modo que qualquer relato histórico que
o utilize como fonte será permanentemente questionado.
7) Dias depois da travessia do Beco, um padre socorreu dois
homens gravemente feridos e colheu ali o relato da luta em que enfrentaram o
poeta. Seu testemunho, caso autêntico,
confirma o fato de que Le Balladier lutou apenas quando não lhe restou outro
recurso, mas que em alguns momentos teve um grupo numeroso de homens a apoiá-lo
no combate armado, o que leva o padre a concluir que tudo não passou de uma
armação urdida com antecedência para que o aventureiro juntasse uma façanha a
mais a sua fama. Como sabemos, não foi
isto que aconteceu.
8) Uma canção da época circulou intensamente entre os jovens
marginais da Praça do Mormaço, quadrilhas de desocupados em conflito permanente
com os grupos similares do Beco da Punhalada. A canção, feita com o propósito
de ridicularizar estes grupos, exagera de maneira cômica o heroísmo de Le
Balladier e o estrago que ele teria feito nas quadrilhas do Beco. Como o propósito da canção é satírico e de
provocação, não pode ser considerada uma fonte confiável de informação.
E assim a travessia do Beco da Punhalada é ao mesmo tempo um
dos episódios mais célebres e mais controvertidos das aventuras de Jean Le Balladier.
De concreto, sabe-se que ele ganhou a aposta feita com Talek, o Jogador, e
recebeu de volta os manuscritos que julgava perdidos. O que ocorreu de fato
durante aquelas duas horas, aproximadamente, em que ficou longe das vistas das
testemunhas, continuará a ser para sempre uma fonte de mistério e um tema para
polêmicas, a menos que o próprio poeta, um dia, resolva colocar no papel o
relato detalhado de sua aventura. O que não é impossível – mas é muito pouco
provável.
Jean Le Balladier viajou tanto que certamente existem numerosos episódios desconhecidos em sua vida aventurosa. Certamente, não é impossível, pode ser que tenha duelado com cego Aderaldo. Ou ainda (ele que tanto fez e desfez), quem sabe, até mesmo encontrado e privado com a Moça-Caetana, aquela rude e enigmática morte sertaneja. Magnífico este teu François Villon alternativo, nordestino, do mundo.
ResponderExcluirValeu, Corintiano Voador... Fique no aguardo, vem mais coisas por aí!
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