segunda-feira, 27 de agosto de 2012

7) BARDO: O Beco da Punhalada (2 de 3)


II


Resolveram que a tentativa de Le Balladier seria feita imediatamente, para aproveitar as duas ou três horas de sol da tarde que ainda restavam.  Pagaram o vinho e saíram caminhando num grupo cerrado e alerta, Balladier à frente, acompanhado pelos dois amigos, Talek e seus três silenciosos companheiros marchando a passos firmes na retaguarda.  Saltaram poças de lama, esquivaram-se de cavalos e de carroças puxadas por burros, detiveram-se para aguardar a passagem de um comboio de carroças atulhadas de barris.  Logo chegaram a uma igreja e um pequeno campo-santo, uma fileira longa de casas altas de ambos os lados da rua. 

Pararam na esquina de uma entrada estreita. De um lado, as ruínas de um casarão incendiado, onde se viam tendas e sinais  de ocupação. Do outro, o muro lateral de uma casa elevada com grades no alto. E entre os dois alongava-se o beco, com fachadas descascadas, pedra, salitre, reboco, montes de lixo pútrido acumulado junto às paredes, pequenos grupos de jovens sujos e silenciosos sentados às portas, vigiando quem entrava e quem saía.

Uns trinta passos adiante, uma muralha de pedra mais antiga do que o resto parecia projetar-se para a frente, como um dente que se entramela por entre os demais. Era forçoso virar à esquerda.  E era apenas o primeiro acidente que impedia a visão do beco por inteiro. Le Balladier já vira um mapa, mostrando o Beco pelo alto, e o bibliotecário que manuseava o manuscrito lhe explicara distâncias e direções.

- Sugiro que nos separemos aqui – disse Talek. – Darei a volta ao quarteirão e o esperarei do lado oposto, com seu prêmio. Levarei comigo uma das minhas testemunhas e um dos seus amigos.  Os demais ficarão guardando esta entrada.

- E se eu demorar?

- Nós o esperaremos até anoitecer. Se não conseguir fazer a travessia à luz do sol, não o fará na escuridão. 

- Eu os acompanharei – disse Gonzal, que era um homem moreno, atarracado, com o cabelos preso num turbante à moda cigana.  Le Balladier apertou-lhe a mão, agradecido.

- E eu ficarei aqui, Jean – disse El Padre. – Espero que saiba o que está fazendo, porque meu primo Leon perdeu a vida nesse covil, ao tentar recuperar algo que lhe roubaram.

- Pode ser – disse o poeta. – Quanto tempo devemos esperar, para sabermos que vocês já estarão do outro lado?

Talek olhou o céu e disse:

- Vamos apenas dar a volta ao quarteirão, não precisamos de relógios. É o tempo de cantarolar seis estrofes em décima, na toada de Finistrel de França.

Jean Le Balladier deu a primeira risada totalmente sincera daquela longuíssima tarde.

- Não posso enfrentar um adversário assim, Talek – disse, – quando nada sei sobre ele, e ele parece saber tudo sobre mim. Me ataca com frases minhas. Como se fossem frases dele.

Abraçaram-se, desejaram-se boa sorte, e os quatro seguiram (Talek, suas duas testemunhas silenciosas, e Gonzal), por entre as hordas de suínos tangidos por meninos enérgicos, um enterro meio às pressas, uma briga de bêbados num local cheio de crianças... Viraram a esquina.

Jean Le Balladier virou-se para o terceiro amigo de Talek.

- Como posso chamá-lo, amigo?

O homem era idoso, parecia entediado, mas tinha um olhar alerta.

- Pode me chamar Yajung.

- Imagino que seja um bom amigo de Talek, o Jogador.

- É o meu patrão, senhor.

- Patrão?  Que interessante. Yajung, quero que preste bastante atenção em tudo que iremos fazer de agora em diante, e você também, El Padre, velho amigo.  Acabei me metendo numa aventura que não previa, mas agora, além de ser tarde para recuar eu não tenho a menor vontade de fazê-lo. Eu vou entrar nesse beco.  Espero que vocês, aqui fora, não sejam incomodados, espero que não, e podem até ficar mais afastados, perto daquela árvore ali, contanto que não percam de vista esta saída do beco. Como os nossos amigos estarão fazendo o mesmo daqui umas quatro estrofes e meia.  Nós bardos temos muitos referenciais de tempo, em função dos poemas que recitamos. Temos uma vozinha que utilizamos em segundo plano, e que pode ficar, como agora estou, recitando as seis estrofes numa cadência padrão, enquanto outra parte de nossa mente consegue conversar sobre o tempo e a temperatura com o vizinho no terraço ao lado. Enfim: o desafio é que eu tenho de entrar aqui no beco e sair vivo, dentro de uma ou duas horas, do lado oposto. Confere? Muito bem. El Padre, aqui estou desafivelando meu cinto com bainha e espada, e coloco tudo à sua guarda. Não, não fique surpreso, não posso crer que você imaginasse que eu tentaria abrir caminho à ponta de espada, ao longo de mais de duzentos passos, no meio de um formigueiro hostil como esse. Não, amigo. Guarde a espada, guarde esta capa de poeta que minha vaidade me obrigou a usar e empreste-me essa sua capa tão surrada e discreta.  Isso.  Não, o punhal à cinta eu manterei, não posso ficar totalmente desarmado, mas se levasse a espada teria que usá-la antes de dar trinta passos.  Além do mais, o espaço é estreito, pede armas curtas.  Quero esta aparência mais banal, sem chamar a atenção de ninguém; é uma pena que estas minhas botas sejam de ótima condição, mas procurarei fazer com que olhem para meu rosto, não para os meus pés. El Padre, Yajung, obrigado pela vigilância, desejem-me boa sorte.

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