O Beco da Punhalada ficava num dos quarteirões velhos de
Porto Antióquia, por trás dos grandes armazéns próximos ao cais, num dédalo de
ruas lamacentas e vielas tortas onde nunca se podia saber o que havia dez
metros mais adiante. Ao longo do beco, a intervalos irregulares de uns poucos
passos, havia portas de diferentes tamanhos e diferentes formatos, dando acesso
a cortiços onde centenas de pessoas passavam a noite ou o dia; buracos nas
paredes levando aos muros das casas do lado oposto do quarteirão; escadas
desconjuntadas de madeira que até anciãos e crianças escalavam, rumo a desvãos
remotos perto dos telhados ou dos beirais.
E ouvia-se ali um ciciar constante, um vozerio que ia e voltava como as
ondas do mar, um murmúrio de gritos estridentes, choro, arrastar de móveis,
chamados urgentes, bate-bocas, pedaços de canções, e de vez em quando um grito
de alerta, um grito de susto, um grito de dor.
Nada existia ali que pudesse interessar a
um cavalheiro, um poeta, um guerreiro de verdade, um membro de mais de uma
elite como Jean Le Balladier. Essas
elites, contudo, estão compostas dos mais diferentes tipos de cavalheiros, uns
mais argutos, outros mais bem informados, outros simplesmente com pendor para a
contradição. No meio de uma discussão durante a oitava garrafa de vinho numa
mesa da Devinière, a seis quarteirões dali, La Balladier usou a
exclamação corriqueira naquela zona: “Prefiro atravessar o Beco da Punhalada
inteiro a fazer isso de novo!”. Percorrer
(de ponta a ponta) aquele Beco era sinônimo de morte.
Na mesa, além dele, estavam dois
espadachins, amigos seus, e um marinheiro de nariz adunco e bigode luzidio que
há pouco pedira licença para fazer-lhes um brinde. O homem mostrou-lhes os
dentes brancos e disse:
- Os homens desta cidade dizem isto o
tempo inteiro, mas não sei qual deles seria homem bastante para tentar essa
travessia.
- Muitos já tentaram – disse El Padre, um
dos dois amigos de Balladier – Nenhum sobreviveu.
- E as centenas de pessoas que vivem ali?
– insistiu o marinheiro.
- Nenhuma delas precisa ir de ponta a
ponta, não é verdade? – disse La Balladier, rindo. – Vão apenas até a porta a
que se destinam. E ao sair, a mesma
coisa, vão apenas da porta até a saída mais próxima do beco.
- Algum de vocês teria coragem de tentar?
– disse o marinheiro. – Poderíamos fazer uma aposta.
- Por que você não tenta? – disse Gonzal,
o outro espadachim.
O marinheiro deu uma risada feroz.
- Eu? Eu não trago no cinto espadas tão
impressionantes quanto a que vocês usam.
Se as penduram ao cinto é porque certamente sabem usá-las.
La Balladier serviu-se de vinho enquanto
comentava:
- Dificilmente um soldado profissional ou
um nobre de linhagem encontraria prazer em puxar a sua espada para gente como
aquela – disse. – Seria como puxar a espada contra uma multidão de ratos de
esgoto.
- É uma pena – disse o marinheiro. –
Porque eu não tenho dinheiro para apostar, mas venho há alguns dias a esta
taverna com a esperança de encontrá-lo, poeta Balladier, porque tenho em minha
posse um objeto que talvez lhe interesse. E se quiser arriscar a sorte...
- Você me conhece?
- Já o vi cantar muitos anos atrás, e
julguei reconhecê-lo assim que entrou.
Sei do seu talento como poeta e fiquei curioso em avaliar suas
habilidades como guerreiro. Eu aposto, poeta, que se você entrar naquele beco
não poderá chegar vivo na extremidade oposta. Se conseguir fazê-lo, ganhará o
objeto que tenho aqui comigo.
- E se eu for morto? O que você terá ganho?
- Um nome a mais para minha coleção. Eu
sou Talek, o Jogador, e mesmo que não tenha ouvido falar em meu nome saiba que
nos lugares de onde venho ele é respeitado.
Gosto de fazer apostas impossíveis com homens importantes.
- A experiência – disse La Balladier – me
ensinou a tratar bem quem traz colado ao nome um epíteto.
- Talek, o Jogador, claro que já ouvi –
disse Gonzal. – Contaram-me na Capadócia a história da morte do Cavalheiro de
Santoya, num naufrágio decorrente de uma aposta feita com um homem chamado
assim.
- Lamentei muito a morte desse bravo
fidalgo – disse o marinheiro. – Gabou-se de que poderia atravessar o Estreito
de Ossulmã durante uma das tempestades tão frequentes ali. E eu lhe garanti que não conseguiria. A prova
de sua bravura é que não hesitou um instante em jogar-se na tormenta.
- E ganhou o que com isto, senhor Zalek? –
disse o poeta.
- Quando contam a história do Cavalheiro
de Santoya, são obrigados a contar um pouco da minha. Esse derradeiro episódio
colou meu nome à biografia dele. Em tempos mais selvagens do que este, homens
matavam nobres ilustres para alcançar essa questionável fama. Eu não sou assassino, sou apenas um homem
que gosta de fazer apostas.
- Não faço muita questão de ser visto como
bravo – disse Balladier. – E não tenho interesse em me enfiar naquele
formigueiro.
O marinheiro serviu-se de vinho, sem
pressa.
- Vivo em busca de adversários, meu poeta,
e sei como atraí-los. – Virando-se, acenou para uma mesa no canto oposto, onde
três homens bebiam, e de onde ele se erguera para vir até ali.
Um dos homens ergueu-se, trouxe para Zalek
uma bolsa de couro que trazia a tiracolo, e voltou para a mesa.
Zalek desamarrou os cordões de couro da
bolsa, e puxou de dentro dela uma coisa volumosa, envolta num tecido macio e
lustroso. Desdobrando o tecido, ele
revelou uma pilha de folhas de um papel amarelado e antigo, folhas manuscritas,
amarradas com uma fita daquele mesmo tecido.
Zalek desfez os nós e retirou com cuidado a folha de cima do pacote.
- Tenho isto há cerca de dois anos, poeta
– disse ele, - e sempre tive a intenção de que passasse às suas mãos. Claro que
tudo tem um preço, como todos sabemos. Já lhe disse qual é o meu.
- O que é isso, Jean? – perguntou El
Padre, que era um homem barrigudinho, grisalho, sorridente.
O poeta ergueu a folha de papel à altura
do rosto; a tinta preta deixara ali duas estrofes de versos, como duas grades
de traços rebuscados, cheios de floreios, centralizadas no branco da folha.
Depois ele estendeu o braço, tocou no pacote em cima da mesa, que teria cerca
de cem folhas soltas iguais àquela, folheou-as com o polegar.
- Estou com medo que meu amigo Saltun
esteja morto – disse ele por fim. – Espero estar enganado.
- Infelizmente, não – disse Zalek. – Se
estivesse vivo jamais teria colocado à venda esses papéis, mas sua viúva não
quis perder tempo com ninharias, e vendeu um baú de livros, entre os quais
este. Claro que ao ver seu nome, e ser depois informado de que esta era sua
letra, imaginei o valor desse achado que me caiu do céu.
Só então La Balladier virou-se para El Padre.
- Muito tempo atrás vivi cerca de um ano
na casa de Saltun, um mercador rico e culto daqui da cidade, que nessa época me
acolheu, me protegeu, me levou a cantar em muitas casas importantes. Ao ir embora deixei com ele muitas coisas que possuía, roupas, livros... E esses versos, de que nunca guardei cópia.
Eu lembrava deles como “O manuscrito de Saltun”, mas durante anos vivi em
países estrangeiros e não tinha como recuperá-los. Depois esqueci.
Zalek retirou cerimoniosamente a folha dos
dedos do poeta, devolveu-a ao manuscrito e voltou a guardá-lo na bolsa.
- Estará à sua espera na outra extremidade
do beco – disse ele.
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