Muitos anos antes, Balladier
tinha participado de um encontro de bardos na Normandia. Guardava lembrançs de
uma noite em que caminhara por uma alameda de archotes até um anfiteatro ao ar
livre onde era esperado por uma multidão, nos degraus escavados na pedra, e no
palco pelo Cavaleiro de Robiac, a quem avistou pela primeira vez naquele
momento, e com quem naquela noite terçou versos, provocações, ironias e
homenagens até o horizonte recortar-se em azul e rosa contra o paredão rochoso
que os abrigava. No dia seguinte, ele e Robiac, ébrios de poesia e insônia,
foram levados a uma catedral onde os monges lhes exibiram orgulhosos uma
tapeçaria que parecia não ter fim e que dava voltas e voltas em torno da imensa
nave, toda bordada de versos e desenhos, cada um deles reproduzindo um fato
notável do passado, uma batalha, uma conquista, uma invasão, uma aparição
milagrosa, a corte de uma dama, a morte de um cavalheiro. Uma tira extensa em
que histórias se sucediam como se nunca fossem ter fim.
Era a mesma sensação que lhe
produziam as estradas, principalmente aquela que o trazia agora de Montrose ao
coração do reino. Uma longuíssima fita ocre de barro, cobreando através de
bosques, vales, colinas, ladeada ora por um arruado de gente coberta de fuligem
e andrajos, ora por um penhasco pedregoso e íngreme; e de cem em cem passos a
lembrança de uma história que ele ali vivera ou ouvira. De vez em quando
avistava-se à distância um castelo de pedras centenárias fincado no topo de uma
elevação, e cada um deles lhe evocava uma aventura, uma noite de triunfo ou de
naufrágio ao retinir das cordas.
Suas viagens tinham pousos
costumeiros, pois aquela era a estrada principal que seguia ao descer a Serra
rumo às vilas e cidades onde era chamado para cantar. Um pouso de tropeiros, uma estalagem ou a casa de algum aldeão
que, honrado pela sua presença, lhe cedia a única cama e insistia em preparar
uma ceia especial.
Foi o que ocorreu na primeira
noite, quando dividiu um pedaço de galinha frita com um homem tísico chamado Jacques
Conflans e sua esposa, os quais lhe serviram um vinho surpreendentemente
saboroso, de um garrafão coberto de poeira que Balladier imaginou ter sido
roubado e guardado para uma ocasião como aquela. Pediram-lhe que recitasse sua Balada
das Três Cruzes, e a escutaram num silêncio reverente; o Bardo se comoveu
ao ver que a mulher de Jacques ouviu o poema inteiro com os olhos fechados e a
respiração contida, como se estivesse em transe. E depois beijou-lhe a mão,
como se lhe pedisse a bênção. Jacques recitou-lhe então uma longa e tortuosa
balada que aprendera na infância, que ele escutou sem entender por inteiro,
pois o cansaço do dia e do vinho começava a pesar-lhe nos olhos. Percebeu que o
poema estava estropiado, com muitos trechos faltando, outros trechos
visivelmente improvisados na hora pelo narrador (a julgar pelas suas hesitações
e pelo desmetrificado das linhas) mas mesmo assim sua imaginação sempre atenta
deixou-se arrastar por aquela narrativa sombria sobre um pássaro negro que
voava em volta de um castelo impedindo que chegassem ali boas notícias, e do
menino a quem foi prometido que no dia em que fizesse dezoito anos poderia
acertá-lo com uma seta.
Na noite seguinte, após avançar
várias milhas, sem parar mais do que alguns minutos para que o cavalo bebesse,
pernoitou numa estalagem de construção recente, onde comeu sem pressa e dormiu
vestido, com a mão no punhal e uma cadeira em equilíbrio precário encostada ao
lado de dentro da porta. A viagem prosseguiu sem incidentes. Cruzou várias vilas onde tinha conhecidos, e
onde foi saudado ao longe com um grito de surpresa, o chamar de seu nome e um
acenar de chapéu; mas ao passar por lugares habitados sempre roçava as esporas
no cavalo, apressando-lhe o passo para evitar atraso. Respondia a saudação, e,
quando se tratava de uma dama, sofreava as rédeas apenas o bastante para levar
a mão ao coração e atirar-lhe um beijo, mas não se detinha.
Até que numa tarde (uma chuva
forte o havia retido a manhã inteira, e ele galopava apressado, tentando
recuperar o tempo perdido), ao galgar uma colina, viu à distância, num terreno
pedregoso, um grupo de três homens atarefados em saquear um corpo caído,
arrancando-lhe as roupas. Sem hesitar, sacudiu as rédeas e abriu galope naquela
direção. Era campo aberto, irregular,
cheio de poças, onde se erguia um grande penedo de forma oval projetando-se do
solo, e para além dele um emaranhado de arbustos. Ao ouvir a aproximação do cavaleiro os três homens largaram o
corpo caído e fizeram menção de lutar, mas quando Balladier desembainhou a
espada e soltou o grito de guerra que aprendera com um mercenário gascão,
cataram às pressas alguns objetos caídos e dispararam na corrida,
embrenhando-se no mato.
O Bardo começou a segui-los, mas
pensou que mais urgente do que castigar os culpados seria cuidar da vítima, e
retrocedeu. Apeou-se, guardou a espada e ajoelhou-se junto ao corpo, tendo o
cuidado de ficar de frente para a direção onde os assaltantes tinham
desaparecido. O homem estava morto, com o crânio fendido. Uma pedra em forma de
cunha, manchada de sangue, era sem dúvida a arma que o abatera. As roupas
estavam em desalinho, e o gibão de veludo tinha os botões arrancados pela
pressa com que tentaram tirá-lo. Botas
e cinto tinham sido roubados pelos assassinos. Era um homem de seus cinquenta
anos, rosto magro e com verrugas, barba grisalha, dentes em bom estado. Trazia
ao pescoço um colar que resistira ao puxão, mas viam-se presos a ele os elos de
uma corrente menor que devia conduzir um medalhão qualquer, igualmente roubado. Não trazia jóias, nem armas, a menos que os
criminosos também as tivessem levado.
Balladier ergueu os olhos,
examinou o local. A tarde caía,
nublada, ameaçando nova chuva. Não
havia sinal de um cavalo, nem rodas de carruagem, nada indicando de que maneira
aquele homem teria sido surpreendido pelos ladrões, pois certamente não se
tratava de um grupo que estivesse viajando junto. Talvez ele viajasse sozinho,
tivesse se apeado por alguma razão, e os assaltantes o tivessem atacado,
afugentando o cavalo. Eram típicos
salteadores de beira de estrada; Balladier lembrou a visão fugaz do grupo disparando rumo ao mato, os pés
descalços de um deles, o cabelo longo e desgrenhado de outro, e o terceiro,
corpulento, correndo mais atrás, apertando objetos de encontro ao corpo.
Ergueu-se, olhou mais uma vez em
torno. Nem sinal do outro cavalo, nem dos assassinos. Agachou-se novamente, revistou as roupas do morto, sem encontrar
nada. Aqui estás, amigo (pensou), sendo revistado pela segunda vez após a
morte; antes mesmo que teu sangue esteja frio já encontras quem queira repartir
teu espólio, e,por mais que a idade e a vida sedentária já me façam peso,não
sei se seria capaz de encontrar agora um anel de ouro sem levá-lo comigo de
lembrança.
Nada de valor, nenhum sinal da
identidade do morto. Balladier olhou aquele corpo mole, os olhos foscos abertos
sem ver, o sangue já coagulado em crostas. Vou deixá-lo aqui?, pensou. Entregue
aos urubus, ou para ser roído pelas feras do mato? Soltou um suspiro fundo.
Despindo a capa e o casaco, puxou a lâmina, decepou o tronco de uma arvorezinha
mirrada, deu um talho oblíquo na ponta, e, sempre de olho em redor, cavou na
terra amolecida uma cova de profundidade suficiente para cobrir o corpo. Arrastou-o para dentro, fechou-lhe os olhos,
compôs-lhe a roupa, murmurou uma prece de palavras truncadas mas com um
sentimento sincero: durante um minuto, compadeceu-se daquele desconhecido,
desejou-lhe bom trajeto no outro mundo, fosse este de que natureza fosse, e
cobriu-o com terra e pedras. Lavou as mãos numa poça rasa, voltou a montar e
afastou-se a galope, porque o vento soprava forte e frio, e as nuvens baixas
pareciam pesadas a ponto de se desfazer.
Naquela noite, chegou tiritando,
encharcado de chuva, ao solar de um nobre a quem conhecia, o Cavaleiro de
Limbour, que estava ausente. Foi recebido por um intendente obeso que o olhou
de cima a baixo com desconfiança, não pareceu reconhecer seu nome nem se
impressionar por suas alegações de amizade, e o conduziu para um alojamento
abafado onde homens imensos, de imensas barbas, ressonavam em colchões de
palha. Balladier comeu o pão e bebeu a
cerveja morna que lhe ofereceram, secou-se como pôde e dormiu como uma pedra.
Outras aventuras de pequena monta
mas de posterior importância sucederam ao Bardo durante aquele trajeto. Certa noite, uma fogueira o atraiu e o
trouxe cheio de cautela para perto de um acampamento onde um grupo de soldados
o surpreendeu no centro de um círculo de lanças, com três arqueiros bem
distribuídos cobrindo-o com setas em riste. Conseguiu demonstrar que não era um
espião da tropa inimiga, e no curso do diálogo percebeu que a guerra que estava
cruzando eram apenas dois grupos de homens mal armados e famintos que se
odiavam e se temiam mutuamente. Não reconheceu o nome de um dos dois lordes
guerreiros que se proclamavam donos da região; no outro nome julgou reconhecer
o de um ex-chefe de guarda real que enriquecera às custas de subornos e
extorsões e agora mantinha do próprio bolso um exército de mercenários que o
desprezavam, e que o matariam assim que pudessem.
Balladier contava às vezes para
colegas de profissão (nunca aos leigos, nunca ao público) as reiterações da
cena que ele chamava A Viola Mágica.
Nas mais difíceis situações, bastava-lhe dizer que era um Bardo, empunhar
o instrumento e entoar os primeiros versos de alguma canção como a Balada
dos Mortos Imortais, reproduzindo a voz roufenha do mestre Robert de
Sancyr, para que aqueles homens rudes se benzessem de medo diante daquelas
centúrias ininteligíveis e ameaçadoras, reprodução delirante das coisas que
eles estavam acostumados a ver nos campos de batalha. A Viola Mágica era isso. Na cabeça daqueles homens simples, quem
era capaz de cantar como aquele homem era incapaz de cortar um pescoço como
eles próprios; e vice-versa. Dependendo
do ambiente e das pessoas, a Viola Mágica se valia das exaustividade geográfica
de O Esqueleto da Terra ou da galhofa maliciosa de As Rameiras da
Vila dos Enforcados. O resultado
era sempre o mesmo: ele deixava de ser um possível espião, um inimigo, e se
transformava numa instituição inofensiva e impessoal, o Poeta Andarilho, alguém
que na mente deles era sem rei, sem lei, sem partido, sem preferência política,
sem religião, sem nome, sem rosto, sem coração, sem estômago, sem culhões, sem
pau. Um homem invisível – era nisso que Balladier se transformava ao cantar.
Ele e os amigos, que concordavam, e aduziam exemplos próprios. Era esse o papel
que lhe convinha.
* *
*
A fita da estrada veio se
desenrolando ao encontro dos cascos do seu cavalo; para se distrair, às vezes,
ele retomava um hábito antigo, de ir compondo versos mentalmente, com a
obrigação de incluir a maioria das coisas que via, das pequenas cenas por onde
passava. Viu sinais de violência:
paredes fumegantes, hortas pisoteadas, aqui e acolá um animal morto ou um corpo
humano. Viu uma jovem camponesa cuja
beleza e timidez o deteve durante o tempo de parar, perguntar uma direção,
puxar conversa, convencê-la a mostrar-lhe uma fonte de água pura que ela disse
haver no mato ali perto, ir até lá com ela, sempre conversando, beber o quanto
precisava e partir rejuvenescido. Viu
uma família só de anciãos, numa carroça cheia de tralhas amontoadas, rodando
devagar e olhando cansados em volta como quem tenta se lembrar do que está
procurando. Viu castelos orgulhosos
cujos soldados empunhavam a lança ou o porrete ao ver sua aproximação, e os
encostavam de novo quando ele seguia em frente sem tentar se aproximar da
pontezinha. Viu urubus negros sobre
ossadas brancas. Viu um arruado onde à
sua aproximação todos fugiram para o mato, menos um homem magro que se ergueu
de onde estava e se postou à beira da estrada, semimorto de fome, mas altivo,
encarando o forasteiro.
A manhã ia alta no dia em que
chegando ao topo de uma colina (que custou a reconhecer, pois das árvores que
recordava havia somente os tocos por entre a relva) avistou de longe uma casa
baixa de pedra, com teto de palhas cobertas de betume, e confirmou que estava a
duas horas da entrar na capital, pois aquela era a taverna do Esmerilhão
Malhado, onde sempre costumava parar.
Tocou as esporas, e fez o cavalo descer a trilha rumo à estalagem, por
trás da qual corria um rio. Viu alguns
cavalos amarrados em mourões, e uma carroça embaixo da sombra de uma arvorezinha. Apeou-se, prendeu o cavalo, empurrou a porta
e entrou.
Há
quantos anos não entrava ali?
Sete? Oito? A mulher gorda que atendia as mesas era
desconhecida; os homens sentado, bebendo,também. Tipos diferentes, alguns que pareciam estrangeiros, outros bem
vestidos, e todos armados. O balcão
manchado de bebida e com parte do tampo queimado era ainda o mesmo; as mesmas
as mesas, os tamboretes, as comidas amarradas pendentes do teto. Ele sentou-se a uma mesa que a moça gorda e
ruiva lhe indicou, pediu uma cerveja.
As duas mesas grandes estavam ocupadas por grupos ruidosos que mal
lançaram um olhar quando ele entrou.
Numa das mesas menores estava sentado um velho de barbas brancas que
dormitava diante de um garrafão de vinho barato, e na outra, quase em frente à
sua, um jovem alto e magro, que o manteve sob vigilância, parecendo examinar as
paredes, desde a entrada até o momento em que a cerveja foi colocada à sua
frente. Balladier ergueu o caneco
quando os olhares dos dois se cruzaram.
O rapaz respondeu a saudação, bebeu, e depois, com certa deliberação,
pousou seu próprio caneco na mesa e, distraidamente, colocou sobre esta algumas
moedas de pequeno valor que tirou do bolso, como se quisesse conferir quanto
trazia para pagar a conta. Pelo modo como enfileirou as moedas formando um
triângulo, depois outro, depois outro, Balladier entendeu que ele era um membro
do Sindicato dos Ladrões, e, para que desse aquele sinal com tamanha presteza,
como que desafiando-o, devia tê-lo reconhecido. “Sabe quem sou, e sabe quem já fui”, pensou ele, “mas não parece
uma ameaça. Pode ser um aliado, mesmo que um aliado perigoso e não muito
confiável. Vai ver que pensa o mesmo de
mim”. Com ar casual, fez um movimento
com as mãos, sinal de reconhecimento e resposta. O outro assentiu e, empunhando a caneca, aproximou-se de sua mesa.