sábado, 27 de outubro de 2012

9) BARDO: Uma fita de histórias sucessivas



Muitos anos antes, Balladier tinha participado de um encontro de bardos na Normandia. Guardava lembrançs de uma noite em que caminhara por uma alameda de archotes até um anfiteatro ao ar livre onde era esperado por uma multidão, nos degraus escavados na pedra, e no palco pelo Cavaleiro de Robiac, a quem avistou pela primeira vez naquele momento, e com quem naquela noite terçou versos, provocações, ironias e homenagens até o horizonte recortar-se em azul e rosa contra o paredão rochoso que os abrigava. No dia seguinte, ele e Robiac, ébrios de poesia e insônia, foram levados a uma catedral onde os monges lhes exibiram orgulhosos uma tapeçaria que parecia não ter fim e que dava voltas e voltas em torno da imensa nave, toda bordada de versos e desenhos, cada um deles reproduzindo um fato notável do passado, uma batalha, uma conquista, uma invasão, uma aparição milagrosa, a corte de uma dama, a morte de um cavalheiro. Uma tira extensa em que histórias se sucediam como se nunca fossem ter fim.

Era a mesma sensação que lhe produziam as estradas, principalmente aquela que o trazia agora de Montrose ao coração do reino. Uma longuíssima fita ocre de barro, cobreando através de bosques, vales, colinas, ladeada ora por um arruado de gente coberta de fuligem e andrajos, ora por um penhasco pedregoso e íngreme; e de cem em cem passos a lembrança de uma história que ele ali vivera ou ouvira. De vez em quando avistava-se à distância um castelo de pedras centenárias fincado no topo de uma elevação, e cada um deles lhe evocava uma aventura, uma noite de triunfo ou de naufrágio ao retinir das cordas.

Suas viagens tinham pousos costumeiros, pois aquela era a estrada principal que seguia ao descer a Serra rumo às vilas e cidades onde era chamado para cantar.  Um pouso de tropeiros, uma estalagem ou a casa de algum aldeão que, honrado pela sua presença, lhe cedia a única cama e insistia em preparar uma ceia especial. 

Foi o que ocorreu na primeira noite, quando dividiu um pedaço de galinha frita com um homem tísico chamado Jacques Conflans e sua esposa, os quais lhe serviram um vinho surpreendentemente saboroso, de um garrafão coberto de poeira que Balladier imaginou ter sido roubado e guardado para uma ocasião como aquela.  Pediram-lhe que recitasse sua Balada das Três Cruzes, e a escutaram num silêncio reverente; o Bardo se comoveu ao ver que a mulher de Jacques ouviu o poema inteiro com os olhos fechados e a respiração contida, como se estivesse em transe. E depois beijou-lhe a mão, como se lhe pedisse a bênção. Jacques recitou-lhe então uma longa e tortuosa balada que aprendera na infância, que ele escutou sem entender por inteiro, pois o cansaço do dia e do vinho começava a pesar-lhe nos olhos. Percebeu que o poema estava estropiado, com muitos trechos faltando, outros trechos visivelmente improvisados na hora pelo narrador (a julgar pelas suas hesitações e pelo desmetrificado das linhas) mas mesmo assim sua imaginação sempre atenta deixou-se arrastar por aquela narrativa sombria sobre um pássaro negro que voava em volta de um castelo impedindo que chegassem ali boas notícias, e do menino a quem foi prometido que no dia em que fizesse dezoito anos poderia acertá-lo com uma seta. 

Na noite seguinte, após avançar várias milhas, sem parar mais do que alguns minutos para que o cavalo bebesse, pernoitou numa estalagem de construção recente, onde comeu sem pressa e dormiu vestido, com a mão no punhal e uma cadeira em equilíbrio precário encostada ao lado de dentro da porta. A viagem prosseguiu sem incidentes.  Cruzou várias vilas onde tinha conhecidos, e onde foi saudado ao longe com um grito de surpresa, o chamar de seu nome e um acenar de chapéu; mas ao passar por lugares habitados sempre roçava as esporas no cavalo, apressando-lhe o passo para evitar atraso. Respondia a saudação, e, quando se tratava de uma dama, sofreava as rédeas apenas o bastante para levar a mão ao coração e atirar-lhe um beijo, mas não se detinha.

Até que numa tarde (uma chuva forte o havia retido a manhã inteira, e ele galopava apressado, tentando recuperar o tempo perdido), ao galgar uma colina, viu à distância, num terreno pedregoso, um grupo de três homens atarefados em saquear um corpo caído, arrancando-lhe as roupas. Sem hesitar, sacudiu as rédeas e abriu galope naquela direção.  Era campo aberto, irregular, cheio de poças, onde se erguia um grande penedo de forma oval projetando-se do solo, e para além dele um emaranhado de arbustos.  Ao ouvir a aproximação do cavaleiro os três homens largaram o corpo caído e fizeram menção de lutar, mas quando Balladier desembainhou a espada e soltou o grito de guerra que aprendera com um mercenário gascão, cataram às pressas alguns objetos caídos e dispararam na corrida, embrenhando-se no mato.

O Bardo começou a segui-los, mas pensou que mais urgente do que castigar os culpados seria cuidar da vítima, e retrocedeu. Apeou-se, guardou a espada e ajoelhou-se junto ao corpo, tendo o cuidado de ficar de frente para a direção onde os assaltantes tinham desaparecido. O homem estava morto, com o crânio fendido. Uma pedra em forma de cunha, manchada de sangue, era sem dúvida a arma que o abatera. As roupas estavam em desalinho, e o gibão de veludo tinha os botões arrancados pela pressa com que tentaram tirá-lo.  Botas e cinto tinham sido roubados pelos assassinos. Era um homem de seus cinquenta anos, rosto magro e com verrugas, barba grisalha, dentes em bom estado. Trazia ao pescoço um colar que resistira ao puxão, mas viam-se presos a ele os elos de uma corrente menor que devia conduzir um medalhão qualquer, igualmente roubado.  Não trazia jóias, nem armas, a menos que os criminosos também as tivessem levado.

Balladier ergueu os olhos, examinou o local.  A tarde caía, nublada, ameaçando nova chuva.  Não havia sinal de um cavalo, nem rodas de carruagem, nada indicando de que maneira aquele homem teria sido surpreendido pelos ladrões, pois certamente não se tratava de um grupo que estivesse viajando junto. Talvez ele viajasse sozinho, tivesse se apeado por alguma razão, e os assaltantes o tivessem atacado, afugentando o cavalo.  Eram típicos salteadores de beira de estrada; Balladier lembrou a visão fugaz  do grupo disparando rumo ao mato, os pés descalços de um deles, o cabelo longo e desgrenhado de outro, e o terceiro, corpulento, correndo mais atrás, apertando objetos de encontro ao corpo.

Ergueu-se, olhou mais uma vez em torno. Nem sinal do outro cavalo, nem dos assassinos.  Agachou-se novamente, revistou as roupas do morto, sem encontrar nada. Aqui estás, amigo (pensou), sendo revistado pela segunda vez após a morte; antes mesmo que teu sangue esteja frio já encontras quem queira repartir teu espólio, e,por mais que a idade e a vida sedentária já me façam peso,não sei se seria capaz de encontrar agora um anel de ouro sem levá-lo comigo de lembrança.

Nada de valor, nenhum sinal da identidade do morto. Balladier olhou aquele corpo mole, os olhos foscos abertos sem ver, o sangue já coagulado em crostas. Vou deixá-lo aqui?, pensou. Entregue aos urubus, ou para ser roído pelas feras do mato? Soltou um suspiro fundo. Despindo a capa e o casaco, puxou a lâmina, decepou o tronco de uma arvorezinha mirrada, deu um talho oblíquo na ponta, e, sempre de olho em redor, cavou na terra amolecida uma cova de profundidade suficiente para cobrir o corpo.  Arrastou-o para dentro, fechou-lhe os olhos, compôs-lhe a roupa, murmurou uma prece de palavras truncadas mas com um sentimento sincero: durante um minuto, compadeceu-se daquele desconhecido, desejou-lhe bom trajeto no outro mundo, fosse este de que natureza fosse, e cobriu-o com terra e pedras. Lavou as mãos numa poça rasa, voltou a montar e afastou-se a galope, porque o vento soprava forte e frio, e as nuvens baixas pareciam pesadas a ponto de se desfazer.

Naquela noite, chegou tiritando, encharcado de chuva, ao solar de um nobre a quem conhecia, o Cavaleiro de Limbour, que estava ausente. Foi recebido por um intendente obeso que o olhou de cima a baixo com desconfiança, não pareceu reconhecer seu nome nem se impressionar por suas alegações de amizade, e o conduziu para um alojamento abafado onde homens imensos, de imensas barbas, ressonavam em colchões de palha.  Balladier comeu o pão e bebeu a cerveja morna que lhe ofereceram, secou-se como pôde e dormiu como uma pedra.

Outras aventuras de pequena monta mas de posterior importância sucederam ao Bardo durante aquele trajeto.  Certa noite, uma fogueira o atraiu e o trouxe cheio de cautela para perto de um acampamento onde um grupo de soldados o surpreendeu no centro de um círculo de lanças, com três arqueiros bem distribuídos cobrindo-o com setas em riste. Conseguiu demonstrar que não era um espião da tropa inimiga, e no curso do diálogo percebeu que a guerra que estava cruzando eram apenas dois grupos de homens mal armados e famintos que se odiavam e se temiam mutuamente. Não reconheceu o nome de um dos dois lordes guerreiros que se proclamavam donos da região; no outro nome julgou reconhecer o de um ex-chefe de guarda real que enriquecera às custas de subornos e extorsões e agora mantinha do próprio bolso um exército de mercenários que o desprezavam, e que o matariam assim que pudessem.

Balladier contava às vezes para colegas de profissão (nunca aos leigos, nunca ao público) as reiterações da cena que ele chamava A Viola Mágica.  Nas mais difíceis situações, bastava-lhe dizer que era um Bardo, empunhar o instrumento e entoar os primeiros versos de alguma canção como a Balada dos Mortos Imortais, reproduzindo a voz roufenha do mestre Robert de Sancyr, para que aqueles homens rudes se benzessem de medo diante daquelas centúrias ininteligíveis e ameaçadoras, reprodução delirante das coisas que eles estavam acostumados a ver nos campos de batalha.  A Viola Mágica era isso. Na cabeça daqueles homens simples, quem era capaz de cantar como aquele homem era incapaz de cortar um pescoço como eles próprios; e vice-versa.  Dependendo do ambiente e das pessoas, a Viola Mágica se valia das exaustividade geográfica de O Esqueleto da Terra ou da galhofa maliciosa de As Rameiras da Vila dos Enforcados.  O resultado era sempre o mesmo: ele deixava de ser um possível espião, um inimigo, e se transformava numa instituição inofensiva e impessoal, o Poeta Andarilho, alguém que na mente deles era sem rei, sem lei, sem partido, sem preferência política, sem religião, sem nome, sem rosto, sem coração, sem estômago, sem culhões, sem pau. Um homem invisível – era nisso que Balladier se transformava ao cantar. Ele e os amigos, que concordavam, e aduziam exemplos próprios. Era esse o papel que lhe convinha.


*      *      *


A fita da estrada veio se desenrolando ao encontro dos cascos do seu cavalo; para se distrair, às vezes, ele retomava um hábito antigo, de ir compondo versos mentalmente, com a obrigação de incluir a maioria das coisas que via, das pequenas cenas por onde passava.  Viu sinais de violência: paredes fumegantes, hortas pisoteadas, aqui e acolá um animal morto ou um corpo humano.  Viu uma jovem camponesa cuja beleza e timidez o deteve durante o tempo de parar, perguntar uma direção, puxar conversa, convencê-la a mostrar-lhe uma fonte de água pura que ela disse haver no mato ali perto, ir até lá com ela, sempre conversando, beber o quanto precisava e partir rejuvenescido.  Viu uma família só de anciãos, numa carroça cheia de tralhas amontoadas, rodando devagar e olhando cansados em volta como quem tenta se lembrar do que está procurando.  Viu castelos orgulhosos cujos soldados empunhavam a lança ou o porrete ao ver sua aproximação, e os encostavam de novo quando ele seguia em frente sem tentar se aproximar da pontezinha.   Viu urubus negros sobre ossadas brancas.  Viu um arruado onde à sua aproximação todos fugiram para o mato, menos um homem magro que se ergueu de onde estava e se postou à beira da estrada, semimorto de fome, mas altivo, encarando o forasteiro. 

A manhã ia alta no dia em que chegando ao topo de uma colina (que custou a reconhecer, pois das árvores que recordava havia somente os tocos por entre a relva) avistou de longe uma casa baixa de pedra, com teto de palhas cobertas de betume, e confirmou que estava a duas horas da entrar na capital, pois aquela era a taverna do Esmerilhão Malhado, onde sempre costumava parar.  Tocou as esporas, e fez o cavalo descer a trilha rumo à estalagem, por trás da qual corria um rio.  Viu alguns cavalos amarrados em mourões, e uma carroça embaixo da sombra de uma arvorezinha.  Apeou-se, prendeu o cavalo, empurrou a porta e entrou.

Há quantos anos não entrava ali?  Sete?  Oito?  A mulher gorda que atendia as mesas era desconhecida; os homens sentado, bebendo,também.  Tipos diferentes, alguns que pareciam estrangeiros, outros bem vestidos, e todos armados.  O balcão manchado de bebida e com parte do tampo queimado era ainda o mesmo; as mesmas as mesas, os tamboretes, as comidas amarradas pendentes do teto.  Ele sentou-se a uma mesa que a moça gorda e ruiva lhe indicou, pediu uma cerveja.  As duas mesas grandes estavam ocupadas por grupos ruidosos que mal lançaram um olhar quando ele entrou.  Numa das mesas menores estava sentado um velho de barbas brancas que dormitava diante de um garrafão de vinho barato, e na outra, quase em frente à sua, um jovem alto e magro, que o manteve sob vigilância, parecendo examinar as paredes, desde a entrada até o momento em que a cerveja foi colocada à sua frente.  Balladier ergueu o caneco quando os olhares dos dois se cruzaram.  O rapaz respondeu a saudação, bebeu, e depois, com certa deliberação, pousou seu próprio caneco na mesa e, distraidamente, colocou sobre esta algumas moedas de pequeno valor que tirou do bolso, como se quisesse conferir quanto trazia para pagar a conta. Pelo modo como enfileirou as moedas formando um triângulo, depois outro, depois outro, Balladier entendeu que ele era um membro do Sindicato dos Ladrões, e, para que desse aquele sinal com tamanha presteza, como que desafiando-o, devia tê-lo reconhecido.  “Sabe quem sou, e sabe quem já fui”, pensou ele, “mas não parece uma ameaça. Pode ser um aliado, mesmo que um aliado perigoso e não muito confiável.  Vai ver que pensa o mesmo de mim”.  Com ar casual, fez um movimento com as mãos, sinal de reconhecimento e resposta.  O outro assentiu e, empunhando a caneca, aproximou-se de sua mesa.

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