Enquanto selava e arreava o cavalo, Jean Le Balladier deu instruções ao
vizinho sobre os cuidados a tomar com sua casa.
Não eram muitos, mas eram essenciais.
As paredes de pedra e as portas de madeira maciça eram resistentes, mas
ele temia que um eventual assaltante, não conseguindo entrar, ateasse fogo ao
teto. Seus pertences mais preciosos estavam em lugar provavelmente seguro no
porão, a dois metros de profundidade, mas aquela casa pequena de dois cômodos
era sua única propriedade material. E o
lugar onde planejara morrer.
Pendurou os alforjes com algumas roupas, alguns mantimentos. A espada à
cinta, a adaga atravessada. A viola a tiracolo, em sua capa de couro macio, atada
com cadarços de fios trançados. Despediu-se do vizinho, Mathieu, um camponês
rijo de barbas louras, da esposa dele, uma mulher de ancas largas e olhos
azuis, e dos seus filhos, um grupo de rapazes de diferentes tamanhos que tinham
crescido ouvindo-o cantar, ouvindo-o contar histórias musicando cada pequeno episódio
de suas infâncias, em estrofes que nunca eram escritas mas talvez chegassem aos
seus bisnetos.
Isso se tiverem bisnetos, pensou ele, descendo devagar a encosta, os
cascos do cavalo fazendo cloc-cloc no cascalho.
Em breve os rapazes talvez tenham que pegar em armas para ajudar o pai a
defender a casa. Talvez sejam recrutados
à força para uma milícia. Talvez daqui a
alguns meses estejam carbonizados por entre as ruínas da própria casa. Ou talvez não. Em todas as guerras alguém
escapa para contar a história, e essas pessoas sempre falam da sua certeza de
que, por piores que fossem as coisas, sobreviveriam. Se bem que os que morrem
devem ter certezas semelhantes.
Irritou-se um pouco a sentir a insistência com que as idéias sombrias
acossavam sua mente, como ondas fustigando um rochedo. Há mais de um ano a
região de Montrose, onde escolhera viver, dava sinais de desassossego. Assaltos
nas estradas, chacinas , quadrilhas de mercenários atacando vilarejos, ladrões
esfaimados matando uma família inteira por um saco de pão.
Armado, vigilante, experiente, saía de casa pelo menos uma vez por
semana para cantar na vila de Montrose ou em algum dos pequenos castelos dos
nobres da região, empobrecidos mas ainda generosos com os poetas, e
alguns dos quais eram seus amigos. Não
precisava de muito. Vivia só. Comia e bebia bem. Produzia talvez os melhores
versos de sua vida, se bem que não na quantidade e rapidez que tinham feito sua
fama quando tinha metade da idade atual. Bem que poderia ter uma mulher como a de
Mathieu, uma companheira bela, forte, paciente. Uma mulher tranquila e confiável;
eis tudo que um homem precisa quando adentra o palácio da velhice, aquele de
onde ninguém sai vivo.
Uma mulher, talvez, em tudo diferente daquela que agora o arrastava a
uma viagem de muitas milhas em território cheio de perigos, para reencontrar
indivíduos de quem não sentia saudade e tentar pacificar uma cidade que lhe
dera fama e fortuna com uma das mãos, humilhação com a outra. Se ele precisava
de uma mulher ela teria que ser diferente desta que agora o convocava, com a finesse de sempre, o encanto de sempre,
com promessas veladas que ela saberia cumprir ou negar conforme lhe conviesse.
Uma mulher cuja moral era tão flexível quanto sua cintura, e que era tão
persuasiva no mentir quanto nocantar. O corpo e os versos, pensou Le Balladier;
foi isso que me escravizou. Em todo o resto era uma cortesã como as outras, tão
ambiciosa quanto os homens que trapaceava.
Mas não é só por ela, pensou. É
para mostrar a mim mesmo que não pendurei a espada nem desencordoei a
viola. Para que eu possa novamente
entrar na “Devinière” e ver cem pessoas ficando de pé antes mesmo de perceberem
o que estão fazendo. Para pontear as cordas e sentir o silêncio absoluto de uma
platéia cuja expectativa beira o fanatismo, e o estrondar dos aplausos de quem acaba
de ouvir um verso que jamais esquecerá.
Quero rever o Beco da Punhalada, onde enfrentei quatro homens com as
mãos nuas diante de uma donzela que soube me recompensar depois. Quero cruzar o Mercado dos Milagreiros,
recebendo bênçãos de megeras desdentadas, de raizeiros obesos, de mercadores de
relíquias, de misturadores de elixir, de pessoas que alegam traficar com
poderes ocultos mas que à minha passagem corriam para tocar na minha viola e
depois beijar as pontas dos dedos. Quero almoçar com príncipes obsequiosos que
me dizem para pedir o que quiser, e quero na mesma noite beber hidromel com
marinheiros rudes que me insultam, ordenam-me que glose um mote, e, diante do
meu verso, bebem em silêncio o resto da noite. Quero sentir um tipo de
liberdade que não sinto neste meu refúgio na Serra; quero sentir a liberdade de
estar numa cidade onde todo mundo tem um crime a ocultar, um vício que não
confessa, um remorso mal curado, uma ambição insatisfeita, e entre os ricos e
os violentos eu me sinto o único livre, livre de tudo que os prende a si mesmos.
É em busca dessa aventura e dessa liberdade que estou indo, pensou Le
Balladier. Para ser honesto, em busca dessa liberdade e da buceta dela.