sexta-feira, 15 de junho de 2012

5) Na estrada de Montrose



Enquanto selava e arreava o cavalo, Jean Le Balladier deu instruções ao vizinho sobre os cuidados a tomar com sua casa.  Não eram muitos, mas eram essenciais.  As paredes de pedra e as portas de madeira maciça eram resistentes, mas ele temia que um eventual assaltante, não conseguindo entrar, ateasse fogo ao teto. Seus pertences mais preciosos estavam em lugar provavelmente seguro no porão, a dois metros de profundidade, mas aquela casa pequena de dois cômodos era sua única propriedade material.  E o lugar onde planejara morrer. 

Pendurou os alforjes com algumas roupas, alguns mantimentos. A espada à cinta, a adaga atravessada. A viola a tiracolo, em sua capa de couro macio, atada com cadarços de fios trançados. Despediu-se do vizinho, Mathieu, um camponês rijo de barbas louras, da esposa dele, uma mulher de ancas largas e olhos azuis, e dos seus filhos, um grupo de rapazes de diferentes tamanhos que tinham crescido ouvindo-o cantar, ouvindo-o contar histórias musicando cada pequeno episódio de suas infâncias, em estrofes que nunca eram escritas mas talvez chegassem aos seus bisnetos.

Isso se tiverem bisnetos, pensou ele, descendo devagar a encosta, os cascos do cavalo fazendo cloc-cloc no cascalho.  Em breve os rapazes talvez tenham que pegar em armas para ajudar o pai a defender a casa.  Talvez sejam recrutados à força para uma milícia.  Talvez daqui a alguns meses estejam carbonizados por entre as ruínas da própria casa.  Ou talvez não. Em todas as guerras alguém escapa para contar a história, e essas pessoas sempre falam da sua certeza de que, por piores que fossem as coisas, sobreviveriam. Se bem que os que morrem devem ter certezas semelhantes.

Irritou-se um pouco a sentir a insistência com que as idéias sombrias acossavam sua mente, como ondas fustigando um rochedo. Há mais de um ano a região de Montrose, onde escolhera viver, dava sinais de desassossego. Assaltos nas estradas, chacinas , quadrilhas de mercenários atacando vilarejos, ladrões esfaimados matando uma família inteira por um saco de pão.

Armado, vigilante, experiente, saía de casa pelo menos uma vez por semana para cantar na vila de Montrose ou em algum dos pequenos castelos dos nobres da região, empobrecidos mas ainda generosos com os poetas, e alguns dos quais eram seus amigos.  Não precisava de muito. Vivia só. Comia e bebia bem. Produzia talvez os melhores versos de sua vida, se bem que não na quantidade e rapidez que tinham feito sua fama quando tinha metade da idade atual.  Bem que poderia ter uma mulher como a de Mathieu, uma companheira bela, forte, paciente. Uma mulher tranquila e confiável; eis tudo que um homem precisa quando adentra o palácio da velhice, aquele de onde ninguém sai vivo.

Uma mulher, talvez, em tudo diferente daquela que agora o arrastava a uma viagem de muitas milhas em território cheio de perigos, para reencontrar indivíduos de quem não sentia saudade e tentar pacificar uma cidade que lhe dera fama e fortuna com uma das mãos, humilhação com a outra. Se ele precisava de uma mulher ela teria que ser diferente desta que agora o convocava, com a finesse de sempre, o encanto de sempre, com promessas veladas que ela saberia cumprir ou negar conforme lhe conviesse. Uma mulher cuja moral era tão flexível quanto sua cintura, e que era tão persuasiva no mentir quanto nocantar. O corpo e os versos, pensou Le Balladier; foi isso que me escravizou. Em todo o resto era uma cortesã como as outras, tão ambiciosa quanto os homens que trapaceava.

Mas não é só por ela, pensou.  É para mostrar a mim mesmo que não pendurei a espada nem desencordoei a viola.  Para que eu possa novamente entrar na “Devinière” e ver cem pessoas ficando de pé antes mesmo de perceberem o que estão fazendo. Para pontear as cordas e sentir o silêncio absoluto de uma platéia cuja expectativa beira o fanatismo, e o estrondar dos aplausos de quem acaba de ouvir um verso que jamais esquecerá.  Quero rever o Beco da Punhalada, onde enfrentei quatro homens com as mãos nuas diante de uma donzela que soube me recompensar depois.  Quero cruzar o Mercado dos Milagreiros, recebendo bênçãos de megeras desdentadas, de raizeiros obesos, de mercadores de relíquias, de misturadores de elixir, de pessoas que alegam traficar com poderes ocultos mas que à minha passagem corriam para tocar na minha viola e depois beijar as pontas dos dedos. Quero almoçar com príncipes obsequiosos que me dizem para pedir o que quiser, e quero na mesma noite beber hidromel com marinheiros rudes que me insultam, ordenam-me que glose um mote, e, diante do meu verso, bebem em silêncio o resto da noite. Quero sentir um tipo de liberdade que não sinto neste meu refúgio na Serra; quero sentir a liberdade de estar numa cidade onde todo mundo tem um crime a ocultar, um vício que não confessa, um remorso mal curado, uma ambição insatisfeita, e entre os ricos e os violentos eu me sinto o único livre, livre de tudo que os prende a si mesmos.

É em busca dessa aventura e dessa liberdade que estou indo, pensou Le Balladier. Para ser honesto, em busca dessa liberdade e da buceta dela. 


4) Nos pântanos de Stillwater


"O Pântano dos Corta-Guela", para os residentes locais, bravos colonos do Condado da Garganta Cortada na província semi-submersa de Mistveil Marshland. A região pantanosa que se alastrava quilômetros costa adentro era conhecida entre os membros do Sindicato de Stillwater como Cutthroat Marsh. "Onde andarilhos são executados como cães, andarilhas estupradas como cadelas, nômades chacinados como matilhas". Assim profere a crença popular desses bravos porém tolos colonos infelizes, o gado que promove o abate do açougue da pilhagem. O Matadouro de Mistveil, como caçoam os esnobes membros da corte. O temido "brejo do estupro" do norte do Mar Lúgubre, "The Mistdevil's Backyard", ou mesmo "o quintal do Demônio das Brumas". Poucos ousam aventurar-se na "costa fétida do mar da Névoa Vermelha", como narram as lendas sanguinolentas dos nômades de Zallaharr, os quais sabiamente mantêm sua distância da província. Histórias confusas e delirantes de espectros grotescos que brotam do gás do pântano. "O Ninho de Aggroggorthis, O Glutão", como apontam mapas de pergaminhos enigmáticos de necromantes e osteomantes de diferentes gerações ao longo das dinastias, cada qual sem relações notáveis entre si. Um brejo hostil e de um negrume denso das águas côr-de-piche adentre a neblina de chumbo até o fosco céu noturno. "La Penumbra", ou "o pântano da penumbra sangrenta" como chamam os mercadores nômades de Las Matanzas. Poucos não conhecem tantas das lendas que assombram Stillwater Shire, e menos ainda são os que conhecem a todas. Porém são os que as perseguem a verdadeira raça em extinção.


Sendo ele um jovem ladino atlético e metódico, Renton Reznik não teve grandes contratempos entre si e sua fuga. Anônimo sob o capuz de monge, partiu entre o começo da chuva e o alvorecer. Tendo chegado na Taverna da Cabeça-Sem-Corpo apenas na madrugada anterior, o Gafanhoto disfarçava-se da própria astúcia. Sob um capuz, uma barba improvisada com palha de vassoura e cola de sapato, além do charmoso pseudônimo de Frei Barrabás, suspeita alguma fora levantada no intervalo de quatro minutos entre sua chegada e sua fuga pela janela do terceiro andar da estalagem, sem pagar a estadia como se comprometera a fazer na saída, como era de seu feitio. Na mesma noite ainda teve tempo de resgatar seus pertences ilícitos no depósito oculto do Sindicato e de quebra ainda roubar de volta da estrebaria da guarda miliciana seu fiel mustang pardo Barabus, o qual na manhã anterior ele havia vendido já com a intenção de roubar de volta menos de um dia depois.


Como era de costume entre os moradores dos cortiços que abarrotam as ruelas estreitas da periferia do povoado além dos muros de pedra, ninguém prestou muita atenção no velho a cavalo que partia sem pressa antes do alvorecer e sob a densa chuva de outono, o que significava que seu disfarce havia dado certo o suficiente.


Debruçado sobre a água negra de reflexo fosco com a Malady em punho, o Gafanhoto termina de raspar a cola do rosto e confere na água se arrancou todas as palhas com a outra mão. Molha a mão numa na lama gelada do fundo do pântano e a esfrega no rosto e na cabeleira. Sua mãe lhe dizia que nessa lama mora tudo o que sobrou dos guerreiros que morreram na costa e boiaram para os pântanos, e que além de carregar espíritos de batalhas passadas também ajuda acelera a cicatrização superficial da pele e a oleosidade dos cachos. Ela entendia de auto-preservação quase tanto quanto entendia de lucro.


Ao vestir o resto do uniforme da cintura para baixo e subir novamente em Barabus, o Gafanhoto não deixa de notar claramente uma silhueta pálida semi-submersa na água turva, apenas a alguns poucos metros córrego adentro, boiando na direção de onde ele minutos antes estivera lavando as partes. O rosto estava virado para o fundo. Os cabelos, longos, apenas uma teia loura platinada boiando na água. Barabus seguia sem pressa.


Como era de se esperar daqueles que compartilharam da vivência da finada Lady Reznik, o Gafanhoto sempre foi um entusiasta do estilo de vida duvidoso que era a sobrevivência nas charnecas nevoadas dos confins de Mistveil. Apenas a poucos quilômetros da orla acinzentada do Lúgubre, os estreitos córregos elameados e de mato alto da costa barrenta eram verdadeiras minas de ouro.


Enquanto cruzava ao lento galope de Barabus o longo corredor estreiro de paralelepípedos negros que cortava o denso bosque pantanoso na costa chuvosa, o Gafanhoto só reparava nas ossadas. E seus adereços.


Quando tinha oito anos de idade, Renton se perdeu dos seus amigos ciganos com quem brincava de pirata perto do acampamento dos pais de seus colegas. Ele vagou a madrugada inteira no frio cortante que penetrava entre as árvores, dormindo na relva a mercê de mosquitos gordos e uma sinfonia de corujas. Foi esperto de esperar até a manhã cinzenta e não gritar nem por nomes nem por socorro. Encontrou os vestígios do acampamento pilhado e dos membros da caravana. Achou o que tinha sobrado dos pais dos seus amigos, mas nenhum sinal de nenhum deles. Não ligou. Só queria voltar para o povoado. Encontrou um corvo bicando um dedão de um pé de criança no caminho de volta.


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Questão de menos de uma dúzia de minutos antes de se instaurar por completo a tenebra pantanosa noturna, o Gafanhoto já havia atado a uma estaca improvisada as rédeas de couro equino que amordaçavam Barabus. Improvisada com um galho grosso e o fio da Malady, o jovem ladino cravou-a no chão lamacento ao redor da fogueira já acesa. Desatou as cordas que amarravam seu colchão fino de couro e estirou-o sobre a relva úmida da clareira. Uma vista claustrofóbica nos entornos e na vista ao céu, graças aos grossos troncos e seus finos galhos. O uivo rasgado do vento adentre os galhos farfalhantes evocaram ao jovem ladino noites de fuga no colo da sua mãe e às histórias que dos lábios dela saíam ao longo dos anos que se seguiram. Fábulas contadas como lendas urbanas por uma bruxa crédula. O delírio do sono lhe fez enxergar mãos de esqueleto e dedos ossudos rastejando para fora da névoa. Exitou quando sentou no colchão sobressaltado, o espasmo breve do reflexo da Malady em punho, mas por fim suspirou sobre a chama trêmula do candieiro a gás e o pântano continuava tão visível quanto sempre foi. Iluminado apenas pela luz azulada que penetrava a fosca névoa, o bosque era tão pouco mais que semi-visível de madrugada quanto ao meio-dia.


Em meio ao negrume azulado, sentou-se exausto no colchão e tirou apenas as botas, deixando os pés brancos de fora no frio. Gostava de descansar os pés na relva enquanto dormia, acordar com eles cheios de insetos, os dedos dormentes. Descansou as botinas de couro de cervo entre a fogueira e seu leito, achando graça em como no escuro seus pés brancos se destacavam em um cinza azulado leitoso quase que cadavérico. Pareciam dois pés humanos decepados e largados no mato, o que curiosamente nem era assim tão incomum de se ver por aquelas bandas. Para qualquer aventureiro que por ali transitasse, não havia nada de temeroso ou mesmo deprimente em deparar-se com restos ou mesmo porções completas de outros aventureiros menos afortunados. Lembrou-se, sem chocar-se, de um par de ossadas de pés calçando botas furadas e manchadas de musgo e sangue ressecado que ele pescou no córrego uma vez. Uma atada à outra pelos cadarços gastos. Um eterno enigma ao Gafanhoto.


Pôs as luvas de couro de coelho e capuz de couro de raposa. Embrulhou-se no próprio calor que lhe sobrava no corpo. Pensava em putas parisienses e donzelas guerreiras teutônicas nuas sob as armaduras. Lembrou dos peitos da bruxa, os da Vespa-Rainha, depois em haxixe marroquino e pés de bailarinas russas. Seus pés ao relento. Adormeceu e sonhou com ossadas de pés na lama.

3) PARA: O Bardo




Ao poeta Jean Le Balladier:

Caro amigo, não deve ficar surpreso ao ler meu nome e ver meu lacre neste sobrescrito. Há muitos anos não nos vemos, mas tenho certeza de que quando pensa em mim é com o mesmo afeto com que o recordo. Seu nome é hoje uma estrela que alta brilha, aos olhares de todos, e diz a lenda que tal como uma estrela o Bardo é inacessível e distante. Peço então que lembre esta sua amiga com o carinho que um dia já nos uniu, e entenda as razões do meu chamado e do pedido que passo a fazer.

Já não é de hoje que o caos e a corrupção se alastram por todos os condados do nosso reino e é triste vê-lo, outrora poderoso e respeitado, sendo vítima de seus próprios vícios, podendo tornar-se em breve um campo de pilhagem para os inimigos que, uma vez que se sintam bastante fortes, tentarão nos invadir. A situação é ainda mais grave em nossa capital, que vive um clima de guerra em tempo de paz, com saques e violências constantes, milícias armadas entrechocando-se, bairros inteiros tentando se preservar por trás de barricadas, para não falar em misteriosos flagelos sobrenaturais que nos atormentam, e que, como nos ensinam os astromantes, costumam ter rédea solta em tempos de insegurança social.

O Sindicato dos Ladrões acaba de emitir um chamado aos seus membros mais ilustres ou mais ativos, para uma reunião que terá lugar na semana dos festejos de São Hermes, no mês que vem. A Guilda dos Bardos está ciente disto e decidiu convocar também alguns representantes. Fui incumbida de chamá-lo, meu querido amigo, o que faço com alegria; em parte por saber que seus múltiplos talentos nos serão imensamente úteis neste momento, e em parte pela esperança de revê-lo e abraçá-lo depois de tanto tempo.  Meus cabelos estão grisalhos e meu corpo talvez não tenha o viço de vinte anos atrás, mas deixo ao seu critério avaliar se o brilho dos meus olhos e a agudeza dos meus versos foram ou não embotados pelo tempo.

A Guilda dos Bardos precisa de você, querido Jean. Foram os Ladrões que tiveram a iniciativa de tentar salvar o reino da derrocada, mas enfim, eles sempre tiveram mentalidade mais prática do que nós, poetas, que só estamos verdadeiramente despertos quanto arpejamos as cordas e deixamos que os versos falem por nós.

Espero revê-lo em breve.  Pode me encontrar no mesmo lugar de sempre.

Sempre sua,

Anayra, Mestra Cantatrix, Guardiã da Torre Ardamond

quarta-feira, 13 de junho de 2012

2) PARA: O Ladrão

"Seu gafanhoto repulsivo e voraz:


Sua fome devora lavouras de ouro


Mas as tripas do Enxame são muitas.


O Vespeiro transpira sangue


Ao calor eminente da tocha.


Nossas cabeças serão dadas de banquete


Aos sapos gordos e os répteis viscosos de suas cortes.


A Colmeia precisa se unificar.


O Enxame precisa se massificar


Se quiser devorar seus predadores.


Você é só um gafanhoto,


Mas sua Vespa-Rainha lhe ordena que voe.


Suas presas ainda mastigam sem força mas suas asas batem rápido.


Já sabemos que você não sobreviverá.


O Sindicato nunca erra.


Espere que essa seja a primeira vez.


- A Vespa"

Livre tradução vaga de um ideograma de versos dodecassílabos formados por caracteres arcaicos semi-assimétricos criptografados na língua de nome oficial desconhecido por não-membros encontrada apenas em manuscritos com um selo autêntico do Sindicato.

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"Renton,


Esse envelope é uma mentira. Se você rasgou ele com pressa e com as mãos trêmulas, saiba que sua ingenuidade masculina juvenil só me deixa cada vez mais envergonhada de me envolver com alguém do seu nível.


Minhas reais motivações nunca foram nem nunca serão seu pênis. Apenas sua missão.


Eldridge já havia me avisado que você botou no prego seu anel giromático decodificador bem antes de eu ter tido a ideia imbecil de te escrever essa carta. Eu sei que você não compreendeu nada do que eu te instruí no documento oficial e sinceramente eu não ligo. Não, só escrevi isso porque talvez estas sejam as últimas palavras que eu dirijo a você.


Desde que recebeu a primeira carta você deve estar achando que eu só quero me livrar de você. Isso por um lado é verdade, mas não pense que apenas porque eu só queria te usar eu não me importo com o que acontece com você. Não me refiro apenas à primeira de suas muitas e suicidas missões no tortuoso rito de iniciação, mas também a nós dois.


Não preciso nem comentar que já sabem sobre nós.


Nesse ramo é difícil manter segredos, principalmente os que têm a ver com iniciados e membros mais velhos, "ter a ver" no sentido de se tratar de sexo e chantagem. Não se preocupe, só os que sabem até agora são os espertos o bastante para terem descoberto por conta própria, que são poucos apesar dos mais estúpidos deslizes de sua parte. Se as tensões políticas dentro da nossa família se exacerbarem além do meu controle, muitos deles terão de ser assassinados ou, o que pra mim seria ainda mais desagradável,  devidamente subornados.


Todo esse derramamento de sangue e de ouro é culpa sua. Portanto fique feliz de nada disso ainda ter acontecido e essa culpa ainda não precisar existir.


E por último só queria te esclarecer que por mais que sua missão seja longa e árdua, não vou sentir sua falta. Acabo de acolher em meus aposentos para-você-não-tão-secretos um recém-chegado trio cigano estrangeiro de neófitos trigêmeos mais novos até que você e nem por isso menos promissores. Tanto na minha cama quanto no seu serviço.


Lamento sua frustração se o envelope com o aroma do meu perfume e a marca do meu batom te levaram a crer que eu seria ingênua como você foi em me deixar sua pretensa declaração de amor suicida embaixo do meu travesseiro enquanto eu fingia que dormia. Primeiramente eu precisava de um disfarce bom o bastante para esta carta, e segundo que eu nem sequer li a sua. Não sei de que tipo de mulher você costuma se aproveitar e para o bem da minha auto-estima eu prefiro continuar sem saber, mas posso te assegurar que uma sequer tem o talento para reconhecer cafajestes oportunistas da sua estirpe como o que meus doze anos de liderança e experiência com os neófitos me presentearam. Você não foi o primeiro e como eu espero morrer solteira ainda cedo, com sorte nem de longe o último.


Mas se isso for tornar sua missão menos desesperadora, pode ter certeza que sua vez ainda não acabou. Eu e você ainda temos muito o que discutir pessoalmente sobre o futuro da sua carreira sob minha tutela.


Suas chances de falhar nessa missão são vastas, e sua morte será horrenda e dolorosa nas mãos dos justos sanguinários ou suja e insalubre nas mãos dos sanguinários justos.


Mas um gafanhoto sempre se safa.


Safe-se. Sua vida depois disso será repleta de riqueza e prazer.


Caso ela dure.


B."

Nenhum selo do Sindicato foi achado nesse segundo manuscrito. Apenas uma marca de batom vermelho-rubi Tzarassai importado por piratas de jóias e cosméticos exóticos emigrantes de obscuros casbás distantes; além de um suspeito, quase imperceptível aroma de lírios espinhosos desérticos.

domingo, 10 de junho de 2012

1) Um Prólogo


Era uma época complicada. Todas as épocas o são, mas a complicação de uma época é diferente conforme seja vista de dentro ou de fora. Aquela era uma época de enriquecimentos rápidos e mortes instantâneas, de magias mal compreendidas e ciências recém-inventadas, onde para ser poderoso bastava exibir o ouro ou o aço. As estradas estavam repletas de salteadores roubando criminosos. A família real e metade da corte haviam desaparecido durante mais de dez dias até que se soube estarem trancados num castelo, sob forte guarda armada, realizando reuniões de Estado (segundo algumas fontes), um baile (segundo outras) e uma bacanal satânica (segundo ainda outras). Uma seca terrível havia devastado as colheitas, e uma guerra no reino vizinhos estava fazendo surgir por ali os mais inconvenientes de tipos de migrantes. Sem reis, sem autoridades presentes, os membros da guarda real faziam o possível para preservar a paz pública nas imediações do palácio e deixavam o resto da capital entregue a si mesma.  Com a escalada do crime aumentando a cada dia, o Sindicato dos Ladrões resolveu tomar uma providência, pois se não o fizesse não restaria em breve mais ninguém de quem roubar. Assim, foi convocada uma reunião extraordinária dos vinte ou trinta membros do conselho tutelar do Sindicato, o que trouxe para lá vários desses membros que viviam espalhados por todos os cantos. Cartas foram expedidas por cavaleiros velozes, convocando todos para uma reunião durante a semana das comemorações de São Hermes, padroeiro da categoria.

E foi assim que dois personagens se encontraram por acaso (embora cada um já soubesse que o outro também estava a caminho dali) na estalagem do Esmerilhão Malhado, e puderam finalmente trocar impressões sobre os cinco anos transcorridos desde que tinham se encontrado pela última vez.