sexta-feira, 15 de junho de 2012

4) Nos pântanos de Stillwater


"O Pântano dos Corta-Guela", para os residentes locais, bravos colonos do Condado da Garganta Cortada na província semi-submersa de Mistveil Marshland. A região pantanosa que se alastrava quilômetros costa adentro era conhecida entre os membros do Sindicato de Stillwater como Cutthroat Marsh. "Onde andarilhos são executados como cães, andarilhas estupradas como cadelas, nômades chacinados como matilhas". Assim profere a crença popular desses bravos porém tolos colonos infelizes, o gado que promove o abate do açougue da pilhagem. O Matadouro de Mistveil, como caçoam os esnobes membros da corte. O temido "brejo do estupro" do norte do Mar Lúgubre, "The Mistdevil's Backyard", ou mesmo "o quintal do Demônio das Brumas". Poucos ousam aventurar-se na "costa fétida do mar da Névoa Vermelha", como narram as lendas sanguinolentas dos nômades de Zallaharr, os quais sabiamente mantêm sua distância da província. Histórias confusas e delirantes de espectros grotescos que brotam do gás do pântano. "O Ninho de Aggroggorthis, O Glutão", como apontam mapas de pergaminhos enigmáticos de necromantes e osteomantes de diferentes gerações ao longo das dinastias, cada qual sem relações notáveis entre si. Um brejo hostil e de um negrume denso das águas côr-de-piche adentre a neblina de chumbo até o fosco céu noturno. "La Penumbra", ou "o pântano da penumbra sangrenta" como chamam os mercadores nômades de Las Matanzas. Poucos não conhecem tantas das lendas que assombram Stillwater Shire, e menos ainda são os que conhecem a todas. Porém são os que as perseguem a verdadeira raça em extinção.


Sendo ele um jovem ladino atlético e metódico, Renton Reznik não teve grandes contratempos entre si e sua fuga. Anônimo sob o capuz de monge, partiu entre o começo da chuva e o alvorecer. Tendo chegado na Taverna da Cabeça-Sem-Corpo apenas na madrugada anterior, o Gafanhoto disfarçava-se da própria astúcia. Sob um capuz, uma barba improvisada com palha de vassoura e cola de sapato, além do charmoso pseudônimo de Frei Barrabás, suspeita alguma fora levantada no intervalo de quatro minutos entre sua chegada e sua fuga pela janela do terceiro andar da estalagem, sem pagar a estadia como se comprometera a fazer na saída, como era de seu feitio. Na mesma noite ainda teve tempo de resgatar seus pertences ilícitos no depósito oculto do Sindicato e de quebra ainda roubar de volta da estrebaria da guarda miliciana seu fiel mustang pardo Barabus, o qual na manhã anterior ele havia vendido já com a intenção de roubar de volta menos de um dia depois.


Como era de costume entre os moradores dos cortiços que abarrotam as ruelas estreitas da periferia do povoado além dos muros de pedra, ninguém prestou muita atenção no velho a cavalo que partia sem pressa antes do alvorecer e sob a densa chuva de outono, o que significava que seu disfarce havia dado certo o suficiente.


Debruçado sobre a água negra de reflexo fosco com a Malady em punho, o Gafanhoto termina de raspar a cola do rosto e confere na água se arrancou todas as palhas com a outra mão. Molha a mão numa na lama gelada do fundo do pântano e a esfrega no rosto e na cabeleira. Sua mãe lhe dizia que nessa lama mora tudo o que sobrou dos guerreiros que morreram na costa e boiaram para os pântanos, e que além de carregar espíritos de batalhas passadas também ajuda acelera a cicatrização superficial da pele e a oleosidade dos cachos. Ela entendia de auto-preservação quase tanto quanto entendia de lucro.


Ao vestir o resto do uniforme da cintura para baixo e subir novamente em Barabus, o Gafanhoto não deixa de notar claramente uma silhueta pálida semi-submersa na água turva, apenas a alguns poucos metros córrego adentro, boiando na direção de onde ele minutos antes estivera lavando as partes. O rosto estava virado para o fundo. Os cabelos, longos, apenas uma teia loura platinada boiando na água. Barabus seguia sem pressa.


Como era de se esperar daqueles que compartilharam da vivência da finada Lady Reznik, o Gafanhoto sempre foi um entusiasta do estilo de vida duvidoso que era a sobrevivência nas charnecas nevoadas dos confins de Mistveil. Apenas a poucos quilômetros da orla acinzentada do Lúgubre, os estreitos córregos elameados e de mato alto da costa barrenta eram verdadeiras minas de ouro.


Enquanto cruzava ao lento galope de Barabus o longo corredor estreiro de paralelepípedos negros que cortava o denso bosque pantanoso na costa chuvosa, o Gafanhoto só reparava nas ossadas. E seus adereços.


Quando tinha oito anos de idade, Renton se perdeu dos seus amigos ciganos com quem brincava de pirata perto do acampamento dos pais de seus colegas. Ele vagou a madrugada inteira no frio cortante que penetrava entre as árvores, dormindo na relva a mercê de mosquitos gordos e uma sinfonia de corujas. Foi esperto de esperar até a manhã cinzenta e não gritar nem por nomes nem por socorro. Encontrou os vestígios do acampamento pilhado e dos membros da caravana. Achou o que tinha sobrado dos pais dos seus amigos, mas nenhum sinal de nenhum deles. Não ligou. Só queria voltar para o povoado. Encontrou um corvo bicando um dedão de um pé de criança no caminho de volta.


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Questão de menos de uma dúzia de minutos antes de se instaurar por completo a tenebra pantanosa noturna, o Gafanhoto já havia atado a uma estaca improvisada as rédeas de couro equino que amordaçavam Barabus. Improvisada com um galho grosso e o fio da Malady, o jovem ladino cravou-a no chão lamacento ao redor da fogueira já acesa. Desatou as cordas que amarravam seu colchão fino de couro e estirou-o sobre a relva úmida da clareira. Uma vista claustrofóbica nos entornos e na vista ao céu, graças aos grossos troncos e seus finos galhos. O uivo rasgado do vento adentre os galhos farfalhantes evocaram ao jovem ladino noites de fuga no colo da sua mãe e às histórias que dos lábios dela saíam ao longo dos anos que se seguiram. Fábulas contadas como lendas urbanas por uma bruxa crédula. O delírio do sono lhe fez enxergar mãos de esqueleto e dedos ossudos rastejando para fora da névoa. Exitou quando sentou no colchão sobressaltado, o espasmo breve do reflexo da Malady em punho, mas por fim suspirou sobre a chama trêmula do candieiro a gás e o pântano continuava tão visível quanto sempre foi. Iluminado apenas pela luz azulada que penetrava a fosca névoa, o bosque era tão pouco mais que semi-visível de madrugada quanto ao meio-dia.


Em meio ao negrume azulado, sentou-se exausto no colchão e tirou apenas as botas, deixando os pés brancos de fora no frio. Gostava de descansar os pés na relva enquanto dormia, acordar com eles cheios de insetos, os dedos dormentes. Descansou as botinas de couro de cervo entre a fogueira e seu leito, achando graça em como no escuro seus pés brancos se destacavam em um cinza azulado leitoso quase que cadavérico. Pareciam dois pés humanos decepados e largados no mato, o que curiosamente nem era assim tão incomum de se ver por aquelas bandas. Para qualquer aventureiro que por ali transitasse, não havia nada de temeroso ou mesmo deprimente em deparar-se com restos ou mesmo porções completas de outros aventureiros menos afortunados. Lembrou-se, sem chocar-se, de um par de ossadas de pés calçando botas furadas e manchadas de musgo e sangue ressecado que ele pescou no córrego uma vez. Uma atada à outra pelos cadarços gastos. Um eterno enigma ao Gafanhoto.


Pôs as luvas de couro de coelho e capuz de couro de raposa. Embrulhou-se no próprio calor que lhe sobrava no corpo. Pensava em putas parisienses e donzelas guerreiras teutônicas nuas sob as armaduras. Lembrou dos peitos da bruxa, os da Vespa-Rainha, depois em haxixe marroquino e pés de bailarinas russas. Seus pés ao relento. Adormeceu e sonhou com ossadas de pés na lama.

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