Ao poeta Jean Le Balladier:
Caro amigo, não deve ficar surpreso ao ler meu nome e ver meu lacre
neste sobrescrito. Há muitos anos não nos vemos, mas tenho certeza de que
quando pensa em mim é com o mesmo afeto com que o recordo. Seu nome é hoje uma
estrela que alta brilha, aos olhares de todos, e diz a lenda que tal como uma
estrela o Bardo é inacessível e distante. Peço então que lembre esta sua amiga
com o carinho que um dia já nos uniu, e entenda as razões do meu chamado e do pedido
que passo a fazer.
Já não é de hoje que o caos e a corrupção se alastram por todos os
condados do nosso reino e é triste vê-lo, outrora poderoso e respeitado, sendo
vítima de seus próprios vícios, podendo tornar-se em breve um campo de pilhagem
para os inimigos que, uma vez que se sintam bastante fortes, tentarão nos
invadir. A situação é ainda mais grave em nossa capital, que vive um clima de
guerra em tempo de paz, com saques e violências constantes, milícias armadas
entrechocando-se, bairros inteiros tentando se preservar por trás de barricadas,
para não falar em misteriosos flagelos sobrenaturais que nos atormentam, e que,
como nos ensinam os astromantes, costumam ter rédea solta em tempos de
insegurança social.
O Sindicato dos Ladrões acaba de emitir um chamado aos seus membros mais
ilustres ou mais ativos, para uma reunião que terá lugar na semana dos festejos
de São Hermes, no mês que vem. A Guilda dos Bardos está ciente disto e decidiu
convocar também alguns representantes. Fui incumbida de chamá-lo, meu querido amigo,
o que faço com alegria; em parte por saber que seus múltiplos talentos nos
serão imensamente úteis neste momento, e em parte pela esperança de revê-lo e
abraçá-lo depois de tanto tempo. Meus
cabelos estão grisalhos e meu corpo talvez não tenha o viço de vinte anos
atrás, mas deixo ao seu critério avaliar se o brilho dos meus olhos e a agudeza
dos meus versos foram ou não embotados pelo tempo.
A Guilda dos Bardos precisa de você, querido Jean. Foram os Ladrões que
tiveram a iniciativa de tentar salvar o reino da derrocada, mas enfim, eles
sempre tiveram mentalidade mais prática do que nós, poetas, que só estamos
verdadeiramente despertos quanto arpejamos as cordas e deixamos que os versos
falem por nós.
Espero revê-lo em breve. Pode me
encontrar no mesmo lugar de sempre.
Sempre sua,
Anayra, Mestra Cantatrix, Guardiã da Torre Ardamond
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